sábado, 4 de abril de 2015

A CRUZ COMO PARTICIPAÇÃO NO MISTÉRIO PASCAL DE CRISTO

A cruz é sinal e expressão da redenção da pessoa. Ela envolve o ser humano em todas as suas dimensões e o predispõe a comunhão com Deus, com os seus semelhantes, com o mundo. Nela a pessoa se descobre amada por Deus e contempla sua vontade, vê a si mesmo em Cristo, pois n’Ele e por meio d’Ele o Pai nos alcança na morte. Assim, a vontade Deus é que nós nos encontremos e permaneçamos n’Ele como parte da humanidade redimida na cruz de Cristo e amada no Pai no seu Filho e que nos voltemos ao Pai por intermédio do Filho na ação do Espírito Santo. Por meio dos Sacramentos, em especial no Batismo e na Reconciliação, a vida divina, seu amor, atinge o homem profundamente e o transforma, o redime, o cura, o santifica, o restaura. Com intuito de compreender o alcance e o valor da cruz como participação no Mistério Pascal de Cristo, veremos os seguintes itens[1]:
1.    O simbolismo da cruz: A cruz é sinal de posse, de propriedade, de proteção, de vitória invencível, de consagração e, de acordo com as referências bíblicas de Ez 9,4; Ex 12,7-13; Nm 21,4-9 e Ap 7,2-3, do ser humano. Este só se torna ele mesmo quando aceita a estrutura da cruz, pois ela é o caminho para a união dos opostos e o sinal de triunfo sobre o poder da morte e do pecado. É necessário vivermos amarrados na Cruz de Jesus Cristo para navegarmos em segurança. No Primeiro Testamento temos algumas analogias acerca da cruz: “madeira” é o typos da cruz, bem como “vara” e “árvore da vida”. Segundo João Crisóstomo a cruz “é luz, tocha que dá vida. É a virada dos tempos que transforma tudo, é símbolo da vitória do amor sobre o ódio”. O sinal da cruz que traçamos sobre nós e sobre as pessoas e as coisas recorda e evoca entre outras coisas: a entrega a Deus e a separação dos demais (eleição); a confissão pública a Jesus Cristo; o amor de Deus que nos cerca em toda parte; uma vida que responde com todas as fibras do coração ao amor do Crucificado. Precisamos carregá-la e tomá-la todos os dias. Por um lado devemos estar prontos para o martírio, por outro superar os perigos que brotam de seu interior e aceitar os sofrimentos e tristezas da existência; suportar pacientemente e com persistência o que Deus permite em nossas vidas (perseguições, sofrimentos, tristezas, feridas, humilhações, decepções...) numa palavra: levar uma vida crucificada (Gl 6,14). Em algumas imagens do Crucificado os olhos estão abertos para significar que Jesus é a divindade intacta, o Leão que vigia enquanto dorme – sinal do amor superabundante de Jesus Cristo. Tudo é transformado na Ressurreição. As imagens do Ressuscitado retratam a superação de todo sofrimento e também da esperança, do consolo, da luz, da confiança e da alegria que despontam da vida após a morte;
2.    O significado da cruz no Segundo Testamento: Segundo São Paulo a cruz é: escândalo para os judeus, loucura para os gentios e sabedoria de Deus para os chamados, escolhidos e eleitos (1Cor 1,23s); protesto contra o autoelogio e a autosuficiência;  sinal de que Deus abre-se aos fracos e manifesta seu amor incondicional e sua graça (cf. Gl 3,13); protesto de um mundo fechado sobre si; evocação ao amor que foi derramado em nós pelo Espírito Santo (Gl 5,24; 6,14); estigma, cicatriz, “tatuagem”, sinal de propriedade, de pertença e proteção divinas (Gl 6,17). Já os Evangelhos Sinóticos[2] apresentam a cruz como sinal do poder demoníaco e das intrigas humanas; sinal da virada das trevas à luz, do ódio ao amor; sinal da esperança (Evangelho de Marcos); sinal da não-violência e do paciente ato de suportar, isto é, a reconciliação entre Deus e os seres humanos (Evangelho de Mateus); sinal daquilo que cruza nosso caminho e nossa vida para quebrar as idéias erradas que construímos em relação a nós mesmos e aos outros; sinal de que temos que tomar, carregar e assumir as tribulações diárias que a vida traz consigo; sinal de que devemos entrega a Deus a vida e a existência dizendo sim à nossa missão no estado de vida que nos encontramos; a cruz é imagem da existência cristã que se abre para a vida, para as pessoas, para o mundo e para Deus; enfim encontrar o Crucificado a partir da experiência da cruz significa encontrar seu próprio âmago divino, isto é, reconhecer o próprio Deus que se manifesta e se revela na cruz (Evangelho de Lucas). São João por sua vez apresenta a cruz como a plena realização da encarnação, momento que mais brilha a glória de Deus, isto é, revelação da glória de Deus e de seu amor misericordioso e salvífico. Noutras palavras, é convite para crer no amor misericordioso; é juízo; sinal de salvação e redenção; é o trono onde Jesus Reina; é imagem do amor incondicional, da entrega, da transformação da vida; sinal de esperança, de amor, do esvaziamento e da bondade divina;
3.    INTERPRETAÇÃO DA CRUZ EM KARL RAHNNER: O entendimento, o ato da liberdade e a solidariedade possibilitam o ser humano atingir a salvação comunicada por Deus a Ele. A autocomunicação de Deus se dá na história. Para Rahnner o ser humano é uma existência intercomunicativa para a morte e a anseia para a ressurreição. A isto chama de teologia transcendental, de busca. A morte é a síntese de toda a vida, ela é a parte essencial da existência humana; é a plenificação do amor e da obediência. A morte é paixão. Nela se manifesta o alcance do pecado. Jesus transforma a morte em entrega amorosa ao Pai. Neste sentido os Sacramentos tornam o amor de Deus visível e palpável. O ser humano nunca está sozinho – intercomunicação – sempre está vinculado e determinado por outros. A cruz é a imagem de nosso relacionamento muito pessoal com Jesus Cristo. A salvação é entendida como entrega a Deus que se entrega a nós – abandonar-se – cruz é transcendência radical. A cruz liberta o ser humano para ser ele mesmo; ela nos questiona. Apenas a pessoa que aceita a morte verdadeiramente torna-se verdadeiramente um ser humano. Ela é convite para a vida verdadeira, para o verdadeiro humanismo. Enfim, afirma Rahnner: a cruz é sinal de reconciliação e unidade;
4.    OUTRAS TENTATIVAS DE INTERPRETAÇÃO DA CRUZ: O ser humano alienado, dividido, dilacerado, encontra sentido no Cristo redentor, na cruz e na Ressurreição do Senhor. Segundo Paul Tillich a cruz é a aceitação do inaceitável. Ela abraça todo nosso ser e transforma-o a partir de dentro. Assim sendo, estar são, salvo, sanado, curador, significa estar íntegro, estabelecido na união original. Na cruz a vida e a morte, Deus e o ser humano, o céu e a terra, o corpo e a alma, estão em união mútua – a cruz opera a unificação dos opostos e contradições que encontramos dentro de nós. Ela nos protege contra a absolutização do poder finito na política, de formas e conteúdos finitos na religião, de valores finitos na sociedade e na cultura; também nos protege contra a dominação e a escravidão do finito. Ela mostra que nenhuma esfera humana de nossa vida está sem relação com o incondicional – da liberdade aberta. Todos os âmbitos de nossa vida estão relacionados com Deus e orientados para Ele, tem a ver com Ele. Mostra que o mundo inteiro está nas mãos de Deus e remete para Deus, que fora dele não há nada que subsiste. Jurgen Molmann (teólogo evangélico), por sua vez, concebe a cruz princípio do entendimento e do reconhecimento da divindade. Ela tem, segundo ele, três significados: revela a lei da graça e da liberdade; é a morte do revoltoso – tem uma relevância política; é um grito de abandono. Portanto a cruz é a irrupção da justiça de Deus, é a revelação do Deus Triúno – na cruz Deus leva para dentro de si toda revolta da história, toda culpa, morte e abandono – revelação de Deus Compaixão. Na cruz nos tornamos humanos verdadeiramente – equilíbrio psíquico – porque Deus crucificado nos liberta e nos faz vivos, vulneráveis, capazes de amar e deixar-se amar. A cruz exige ações de libertação frente à pobreza, a violência, a alienação, a destruição e ao abandono. Segundo C. G. JunG, psicólogo suíço, o símbolo da cruz provoca efeito sanador e centrador sobre o self do ser humano. Ela é símbolo do sacrifício, do sofrimento, do cosmo (união de todos os opostos), da integridade, da redenção; é um presente de Deus. Ela nos leva a integridade e a acolher os dons divinos. É imagem de da reconciliação de todos os opostos; tem um efeito sanador, protetor e estabilizador. Enfim, a cruz nos leva a abrir-se para o mundo, às pessoas e a Deus; temos que ser tocados, machucados pelas pessoas, até que o amor de Deus possa curar-nos e transformar-nos;
5.    A CRUZ HOJE: A cruz é sinal do triunfo da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio; é sinal da árvore da vida, sinal de esperança; é sinal sanador e encorajador. Diante de nós, através dos noticiários das várias emissoras de TV e dos Meios de Comunicação em geral, são apresentados os sofrimentos, as dores, as angustias e as mazelas da vida em todas as suas dimensões, causando muitas vezes indiferença, falta de compaixão, esquecimento do sofrimento ou um tabu, isto é, ver a dor e a cruz como sinal de desalento, dureza, insensibilidade, isolamento, fuga (deixando-as aos cuidados dos psicólogos, médicos, assistentes socais, padres, pastores...) ou como uma espécie de lepra que causa repugnância. Entretanto a cruz nos lembra as paixões de nosso tempo e traz esperança, amor; é um convite a solidariedade com os que sofrem. Ela nos faz carregar e enfrentar a sorte com mais força, otimismo, esperança; faz também ficar interiormente alegre e contente frente ao sofrimento. A cruz é a imagem da humanidade autêntica e da pessoa redimida.



[1] Os cinco itens foram elaborados a partir da leitura do Livro de Anselmo Grum “A CRUZ: a imagem do ser humano redimido”. São Paulo: Paulus, 2010.
[2] “Evangelhos Sinóticos” refere-se aos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas respectivamente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

TEMPO DA QUARESMA

 “Com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa páscoa” (Regra de São Bento, 49,7)

Quaresma “Sinal sacramental da nossa conversão”. O caminho de fé-conversão implica em etapas sucessivas, em movimento progressivo. O ano litúrgico corresponde a esta pedagogia e “goza de força sacramental e especial eficácia para alimentar a vida cristã” [i]. Por isso, os tempos e as festas que voltam a cada ano, com as mesmas leituras, os mesmos cantos e orações, não é um monótono repetir-se das coisas, mas uma representação sacramental do mistério de Cristo e da sua Igreja. Não se trata de simples reprodução dramática da vida, morte e ressurreição de Jesus, mas é memória sacramental: o que se realizou em Jesus ‘uma vez por todas’ se atualiza no presente momento de nossa história, mediante nossa adesão, ao participarmos das ações litúrgicas com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente (cf. SC 11). A quaresma, no seu conjunto de palavras, ritos e ‘exercício da vida cristã’, é um grande “sinal sacramental da nossa conversão” [ii]. Enquanto realidade sacramental, é feita de sinais sensíveis: gestos corporaissentido teológico (realidade significada) e atitude interior.

Gestos corporais, símbolos, imagens, personagens, músicas. Quaresma: um tempo de quarenta dias.  
·        - Cinzas em nossa fronte
·        Cor roxa (rosa no 4o domingo) e ausência de flores.
·        - Canto sem glória, sem aleluia e sem instrumentos musicais, indicando sobriedade, coerente com o sentido e a espiritualidade da quaresma: “Reconciliai-vos com Deus”; “o vosso coração de   pedra se converterá”; “Dizei aos cativos saí”...
·        - Jejum, esmola e oração.
·        - A cruz em destaque.
·        - O ato Penitencial ou o rito da bênção e aspersão com água
·        - O sacramento da reconciliação. 
·        Personagens: Moisés, o profeta do êxodo; a samaritana; o cego; Lázaro, Nicodemos; a pecadora; o Filho pródigo... Sobretudo Jesus, o novo Moisés e o novo Adão.
·        Imagens: o grão de trigo que morre para gerar vida; o desafio de nascer de novo.
·        A procissão com ramos e a cor vermelha no domingo de Ramos.
·        Quarenta dias: 40 dias e 40 noites do dilúvio... 40 anos do Povo hebreu, a caminho, pelo deserto... 40 dias e 40 noites que Moisés passou no alto da montanha... 40 dias e 40 noites que Elias caminhou até o monte de Deus... O prazo de 40 dias da cidade de Nínive... Sobretudo, os 40 dias e 40 noites do retiro de Jesus no deserto, depois do batismo no Jordão onde recebe do Pai a missão de Servo. No primeiro domingo (anos ABC) vemos Jesus indo para o deserto repleto do Espírito. Apoiado na Palavra do Pai vence a provação do demônio e se prepara para a missão e todas as conseqüentes provações.

Sentido teológico-litúrgico e atitude interior
O tempo da quaresma coincide com o tempo da purificação e iluminação dos catecúmenos que deverão celebrar os sacramentos da   iniciação na páscoa. Para os que foram batizados, a quaresma é tempo de viver as exigências deste sacramento, mediante profunda e progressiva conversão, ‘para celebrar os mistérios pascais, que nos deram vida nova e nos tornaram filhos e filhas de Deus” (cf. prefácio I).

Começamos a quaresma (rito das cinzas) escutando um duplo convite:  “convertei-vos e crede no evangelho”:
a)     conversão parte do fato que o mal está instalado no coração humano, assim como nas relações sociais. A conversão é a possibilidade de superar o mal pelo exercício constante do bem. Pedagogicamente a austeridade própria da quaresma, sobretudo a prática do jejum, nos remetem ao necessário vazio do corpo e do coração. Assumir o jejum como ‘sacramento da páscoa’ pelo qual o Espírito nos faz passar das nossas necessidades, às necessidades dos outros, como exercício de conversão. Jejum ‘com a cabeça perfumada’, já que a conversão é obra da iniciativa de Deus em Cristo, e não simples resultado de um esforço nosso.
b)     Justamente por que cremos que é Deus quem nos converte, pelo seu Espírito, somos convidadas/os a abrir maior espaço para a gratuidade da oração, lembradas/os que somos parte do ‘povo da aliança’ (cf. prefácio V). Oração que é um colocar-se sob o ‘julgamento’ da Palavra de Jesus, obedecendo à voz do Pai no batismo e na transfiguração (2º domingo – ABC): “este é meu filho amado, escutai-o”. Escutar a Palavra com atenção e assiduidade e crer na sua força, para vencer ‘as tentações’: a) de consumir (bens, cargos, informações...); b) de dominar situações e pessoas como forma de auto-afirmação; c) de instrumentalizar Deus em benefício próprio.

c)     Durante a quaresma, nos domingos e dias da semana, na missa e na Liturgia das Horas/ODC, as orações, os textos bíblicos e os textos patrísticos, vão como que indicando o caminho. A primeira leitura dos domingos, nos anos ABC, conta os grandes momentos da história da salvação e da caminhada do povo de Deus. A partir do 3º domingo (no ano C) os textos evangélicos (figueira estéril, o filho que volta, pecadora perdoada) enfatizam a misericórdia de Deus e convidam a acolhe-la mediante a conversão do coração e o perdão.[iii] 

d)     perdão como exercício de conversão: auto-conhecimento e aceitação de si com suas ambigüidades, compreensão dos outros com suas sombras... não aprisionar a si e aos outros nas conseqüências negativas dos próprios atos... Com os nossos ‘critérios adquiridos’, o perdão pode parecer impossível, mas o ‘divino em nós’ pode perdoar.

e)     cruz pela qual fomos marcados no batismo, em destaque neste tempo, lembra que somos discípulas/os de Jesus, que superou o fracasso humano da Cruz com um amor que vence a morte. “Sabemos que passamos da morte à vida se amamos os irmãos” (1Jo 3,14).

Repercussões...
‘Somos Todos Um Só. (...) O gesto concreto positivo, ainda que pequeno e isolado, tem repercussão para a humanidade, para o universo, e o mal que fazemos aos outros atinge a nós também (Dalai Lama). Dicas de ouro: tratar os outros como gostaria de ser tratada/o e fazer o bem sem esperar troca (cf. Lc 6,31.35).


[i]    Paulo VI ao aprovar as Normas Universais do Ano Litúrgico e do Novo Calendário.
[ii]  O texto italiano tem esta tradução : “Ó Dio, nostro Padre, com la celebrazione di questa Quaresima, segno sacramentale della nostra conversione, concedi a noi tuoi fedeli di crescere nella conscenza del mistero de Cristo e di testimoniarlo con una degna condotta de vita (...)”. É uma tradução mais fiel ao texto latino. Infelizmente no missal brasileiro esta compreensão da quaresma como ‘sacramento’ ficou oculta.

[iii]  Os evangelhos do ano A, enfatizam a dimensão batismal da Igreja. Correspondem ao esquema mais antigo, ligado ao catecumenato (Samaritana, cego, Lázaro).  No ano B, o acento é colocado sobre a glorificação de Cristo mediante a cruz e sobre a nossa participação no seu mistério (vendilhões do templo, Nicodemos, grão de trigo).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

QUARESMA E PÁSCOA COMO REALIDADE SIMBÓLICO-SACRAMENTAL

 Quaresma e Campanha da Fraternidade são para nós, no Brasil, quase uma coisa só: tempo de conversão do egoísmo para a fraternidade em preparação à páscoa. Antes do Concílio Vaticano II a quaresma era também tempo de conversão, mas individual. O Concílio Vaticano II afirma que a Quaresma tem uma índole dupla: tempo de lembrança ou preparação para o batismo e tempo de penitência interna e individual, externa e social (Cf. SC 100 e 110). Com a Campanha da Fraternidade o convite à conversão recebe uma conotação especial: não é mais somente o indivíduo que é convocado à conversão, mas a comunidade, a Igreja, a sociedade, o mundo. Como vemos, a Campanha da Fraternidade é tempo de conversão ou penitência individual e social.
            Na caminhada de conversão rumo à vida nova da páscoa nos orientam e animam especialmente as leituras das missas e celebrações da Palavra de Deus aos domingos, sobretudo os Evangelhos. Durante a Quaresma é importantíssimo o caminho catecumenal proposto pela Igreja a todos àqueles que querem acolher a vida nova que vem do encontro com Jesus Cristo, mediante o batismo. Tudo converge para a vida nova: as leituras, os cantos, as orações, o silêncio, o clima de recolhimento, as celebrações penitenciais. A vida nova que os recém-batizados recebem na noite pascal se exprime, na celebração do batismo, por meio da veste branca, da vela acessa, da unção com o crisma.
            Os 50 dias entre Páscoa e Pentecostes são dias de graça e devem ser vividos como um único dia, como um prolongamento da vida nova. Os gestos, as ações e as palavras, sobretudo aquilo que trazemos e fazemos nas celebrações, têm valor simbólico-sacramental, pois nos mostram e realizam em nós e no mundo o Reino, fazendo da Igreja que celebra a quaresma e a Páscoa o grande sinal de salvação erguido no mundo. Estes dias são simbólico-sacramentais.

Referencia Bibliográfica:
AAVV. Ano Litúrgico como realidade simbólico-sacramental. São Paulo: Paulus, 2002, (Cadernos Litúrgicos, n. 11)

terça-feira, 17 de junho de 2014

A LITERATURA APOCALÍPTICA


A Literatura apocalíptica é a radicalização do Dia de Javé, com visões, símbolos, imagens... Dia de Javé (destruição do mundo, intervenção de Deus (Am 5,15-20), transformação do mundo/história (Cf. Jl 2,1-2; Mc 13,19-21; Os 13,7-8; Is 24,18; Jr 48,44; Mt 27,45). O Dia de Javé mudou: Inicialmente era contra contra as autoridades do mundo; => depois contra os opressores de Israel (Egito, Babilônia, Medos, Pérsia, Gregos/Alexandre Magno... impérios);=> Após o exílio, contra os ímpios (quem não observava a Lei);=> Quando a profecia desaparece, o povo perde seu porta-voz: profeta;=> por volta de 198/200 a.C. com a helenização dos selêucidas e em 168 a.C. com Antíoco IV, criou uma sensação do fim do mundo/céus fechados... => Deus derrotará os inimigos... o Filho do Homem/Messias vai derrotar os inimigos dos judeus e estabelecer o Reino de Deus. Destaca que tudo está no Livro da História.
Características da Literatura Apocalíptica: Antigo/Primeiro Testamento:Dn 7,1-28; 13-14 – 170-160 a.C.:Visão, símbolos (cf. BJ, Peregrino, TEB); Feras=inimigos: (Babilônia, Medos, Pérsia, Gregos/Alexandre Magno, Antíoco IV – 1Mc 1, Besta/prostituta); Ancião/Reino de Deus/Tribunal; Livros/destruição das feras/luta; Filho do Homem montado nas nuvens; Império eterno.
Características da Literatura Apocalíptica: Novo/Segundo Testamento: Incutir esperança/coragem; Visões, sonhos, símbolos, imagens dramáticas; Retrata a realidade por meio de imagens/símbolos/veladas; Fala de uma intervenção divina que provoca mudanças – Juízo/tribunal/livro/Reino de Deus; Revelação; Consolar. 

Realidade/contexto do livro do apocalipse

Causa interna:

ÉFESO (2,1-7)
ESMIRNA (2,8-11)
PÉRGAMO (2,12-17)
TIATIRA (2,18-28)
SARDES (3,1-6)
FILADELFIA (3,7-13)
LAODICÉIA (3,14-22)
Ricos
Pobres
Ricos
Média
Pobre
Média
Ricos
Metrópole, cidade portuária, 600 mil, culto pagão, cidade imperial, muitos cultos; Artemis (deusa de toda a Ásia.
Cidade portuária, culto imperial.
Capital da província da Ásia, burocratas, centro da arte, residência do procônsul, 30 km do mar, fábrica de pergaminho (couro: ovelha).
Tecido, Lídia é negociante de púrpura, 80 km do mar, indústria de tecido.
Centro agrícola, pequenos colonos, 90 km do mar.
Indústria têxtil, antiga colônia judaica, tem sinagoga.
Tecido especial: lã preta, centro medicinal (colírio), centro bancário... revolução vulcânica... banho quente.
Positivo: Perseverança, sofrem por amor de Deus, boa conduta.
Positivo: Perseverança, espiritualidade, testemunho, resistência, fidelidade, 50 km de Éfeso.
Positivo: mantém a doutrina, testemunho fiel, não aderiu ao trono de satanás, martírio cristão.
Positivo: amor, fé, dedicação, perseverança.
Positivo: guardam a Palavra, não renegam o nome de Deus, são perseverantes.
Positivo: vigilância, pessoas dignas, viva, prática, pureza.
Positivo: não tem nada.
Negativo: Abandono do 1º amor, 200/300 cristãos apenas, sociedade escravagista; detesta os nicolaístas/gnosticismo.
Negativo: falsidade, blasfêmia, traição, perseguição interna (Judas: sinagoga) e externa (império); 10 dias: curto prazo.
Negativo: culto ao imperador, gnose e nicolaístas, Balaão (culto aos pagãos); satanás=Império Romano.
Negativo: prostituição, cultos pagãos, aderem a doutrinas estranhas.
Negativo: satanás, pouca força econômica; 3,10: perseguição.
Negativo: hipocrisia, conduta não perfeita.
Negativo: nem frio nem quente, pobre, cego, nu... diante de Deus.

Causa externa: Ap 6,1-8: (Cavalo branco – Arco/exército romano;Cavalo vermelho – espada/guerra – expansão do território – garantir comércio e fornecer escravos;Cavalo negro – balança/comércio – bens; Cavalo verde – morte/fome/doenças/guerra... espalham a morte) / Ap 18,9-24 (tomara que seja)/1Pd (santos e profetas)/comunidade cristã / Ap 13 e 18besta=imperador/dragão/diabo; bestinhas=patrões/sociedade patronal/pax romana.
 

Existem várias propostas de estrutura do Livro do Apocalipse:

1)       Estrutura dupla:[1]

Prólogo e saudação
Cartas às 7 Igrejas
visões proféticas
Epílogo
1,1-8
1,9-3,22
4,1-22,5
22,6-21
 
2)                  Estrutura linear:[2]
Prólogo e saudação
Visão de Cristo Ressuscitado
Cartas às 7 Igrejas
Anúncio profético
Epílogo
1,1-8
1,9-20
2-3
4,1-22,5
22,6-21

3)       Estrutura unitária e concêntrica:[3]
A
B
C
D
C1
B1
A1
Prólogo e saudação
Visão
7 carta
Liturgia final
Visão
7 selos
Liturgia final
Visão
7 trombetas
Liturgia final
Visão
7 taças
Liturgia final
7 visões
 
epílogo e saudação
1,1-8
1,9-4,11
5,1-8,1
8,2-14,5
14,6-19,8
19,9-22,5
22,6-21

4)       Estrutura septenária:
7 cartas
7 selos
7 trombetas
7 sinais no céu
7 taças
7 vozes do céu
7 visões do fim
1,9-3,22
4,1-7,17
8,1-11,14
11,15-14,20
15,1-16,16
16,17-19,5
19,6-22,5

5)       Estrutura doutrinal:
Uma Igreja muito humana
Uma Igreja face aos problemas de seu tempo (4-20)
Uma Igreja descida do céu
1,4-3,22
De Israel às nações
Face às potências totalitárias
 
21-22
 
4-11
12-20
 
 
 
6)       Estrutura tripartida com critérios histórico-teológicos (Veja acima, Mesters):
Carta às comunidades
Primeira leitura da perseguição (Nero)
Segunda leitura da perseguição (Domiciano)
1,1-3,22
4,1-11,19
12,1-22-21
Boa Nova como fidelidade e compromisso
Boa Nova como novo êxodo
Boa Nova como julgamento do opressor

·         O conteúdo: Após uma breve introdução, as saudações iniciais e as cartas às sete Igrejas (Ap 1-3), o autor dá início à parte propriamente profética do livro com uma visão inaugural do céu em que, no meio de uma solene liturgia cósmica, a majestade de Deus, como soberano absoluto do universo e da história, entrega ao Cordeiro os destinos do mundo (caps. 4-5). Seguem-se duas séries de visões que parecem paralelas: a primeira, os 7 selos e as sete trombetas desencadeadas pelo sétimo selo (caps. 7-11, com interlúdios). É anunciada uma invasão de povos bárbaros causando um grande extermínio pelos males que costumam trazer: guerra, fome e peste (6); alguns eleitos são preservados, outros já cantam sua vitória no céu (7); segue-se uma série de pragas enviadas como advertência, a semelhança das do Egito, para a conversão dos pecadores e inimigos de Deus (8-9). Mas a falta de arrependimento por parte dos ímpios, agora como com o faraó no passado, torna o castigo inevitável (10-11).  A segunda série, compreende a mulher com criança (12), as duas bestas (13) e, após um interlúdio (14), as sete taças com as últimas sete pragas (15-16). O desenvolvimento do último julgamento (17-19) com o castigo dos que procuravam corromper a terra induzindo os homens a adorar Satanás (alusão ao culto dos imperadores da Roma pagã)[4] é pintado com diferentes imagens (a grande prostituta e a besta escarlate, a destruição da Babilônia=Roma, o combate escatológico) e encerrado com o reino de mil anos, um período de prosperidade para a Igreja, que terminará com um último assalto de Satanás, seu aniquilamento definitivo, a ressurreição dos mortos e o Juízo final (20); finalmente se manifesta a glória da Jerusalém celeste brilhando no mundo novo em que, destruída a morte e renovadas todas as coisas, Deus mora para sempre com seu povo em perfeita paz e felicidade (21-22).

·         Qual a finalidade do livro do Apocalipse? A finalidade do livro não é fazer conhecer de antemão os eventos do fim do mundo; o seu fim é outro; é fazer uma teologia da história, porque ele se refere a uma precisa situação histórica, para entendê-la, a partir dos acontecimentos pelos quais ela está passando. Por isso, busca compreender o sentido da história e não o que vai acontecer no fim dela. Neste sentido, o livro dá grande ênfase uma história que está aberta para a esperança em Deus, porque a vitória de Cristo sobre o mal já aconteceu uma vez por todas e vem se manifestando pela vitória dos poderes malignos representados pelo dragão, pelas bestas e pela Babilônia, onde culminará no fim dos tempos, sendo realizada de forma plena. Assim, o autor faz uma transposição do evento pascal para o fim dos tempos, para confirmar que esta vitória se cumprirá de forma perfeita e plena no fim, onde todos os poderes do mal serão derrotados.

·         O Apocalipse apresenta uma quantidade de duplicados completamente anormais. Eis como M.E. Boismard exprime sua observação: “não será exagero dizer que que cada episódio, cada visão apresenta-se em exemplar duplo: os 144 mil fiéis de Cristo (7,2-8 e 14,1-5), os eleitos no céu (7,9-17 e 15,2-5), os flagelos das sete trombetas e das sete taças (8-9 e 16)…a descrição da besta com sete cabeças e dez chifres (13,1.8 e 17,3.8)…” A lista prossegue e culmina com a Jerusalém ideal futura (21,1-8 e 21,9-22,5)… e a rejeição final dos ímpios”.

·         Os Números: explícitos ou implícitos na estrutura, por exemplo, uma palavra que se repete sete vezes. “Segundo a velha tradição bíblica, alguns números, além de quantidade, significam alguma qualidade; assim os usa o autor”.[5] Os números simbólicos que mais dominam no livro são: três, dependendo ao que se refere, mas em algum modo relacionado com a divindade ou sua intervenção, sobretudo quando implícito (“era-é-vem”, “santo,santo, santo”); quatro, a totalidade cósmica (19 vezes: 4 seres viventes, 4 pontos cardeais, 4 anjos, 4 cantos da terra, 4 ventos, etc.); sete (4+3), o número da completeza (55 vezes: 7 Igrejas, 7 candelabros, 7 espíritos, 7 selos, 7 trombetas, 7 taças, 7 cabeças da besta, etc.); “dez”, totalidade delimitada, não sagrada, fraca, de pouca douração: o número do poderio total do mundo (10 dias de tribulação, 10 chifres do dragão, 10 diademas da besta, 10 reis, etc.); doze, número completo e sagrado das tribos de Israel ou povo de Deus (4x3, 23 vezes); 1000 anos: o tempo incontável, mas completo, até o fim do mundo; 144000: a multidão (=mil) do quadrado de 12, o autêntico Israel reunido (antigo e novo); 666, nem perfeito, nem sagrado, nem completo, a total imperfeição, o Mal (3x6); 3 ½, ou seja, metade de sete, período incompleto (12,14; = 42 meses ou 1260 dias 11,3; 12,6; 13,5; cf. Dn 7,25; 12,7): Deus limita o tempo de perseguição sob o controle dos inimigos, o domínio do anticristo. Merece também atenção o fato que cada setenário inclui, como sétimo elemento, o setenário seguinte, até desembocar na conclusão final. Mas por causa dum “crescendo” que vai se criando, o desenvolvimento da técnica não é linear, outros elementos entram em cena.

·         As cores: branco significa vitória (3,4; 6,11; 7,9; 19,14); vermelho/púrpura/escarlate, batalha sangrenta (perseguição, martírio, 6,12; 8,8, etc.), prostituição/embriaguez/devassidão (17,3.4.6); esverdeado/preto, peste/epidemia e morte (6,5.12).

·         As imagens: elas são numerosas. Predominam imagens cósmicas e os elementos da natureza: ar, água e fogo, estrelas, sol e lua, montanhas e ilhas, rios e oceano, o abismo primordial. Fenômenos assustadores: terremotos, trovões e relâmpagos, com chuvas de enxofre e granizo, símbolos de teofanias. Seres celestes e diabólicos, anjos e espíritos, exércitos do Bem e do Mal. Não faltam animais e monstros polimorfos: feras e bestas de sete cabeças, cavalos com cabeça de leão e cauda que parece serpente, ursos, panteras, cães, sapos, escorpiões e gafanhotos, símbolos de pragas e castigos. Metais e pedras preciosas: ouro e argento, pérolas e jaspe, safira e esmeralda, símbolos de raridade. Muitas imagens são de origem mítica: a luta primordial entre o Bem e o Mal, o nascimento de um salvador, rebelião de seres celestes. “É importante observar a técnica do autor no manejo de suas imagens. Em alguns casos, o esforço e cálculo intelectual predominam, a imagem se torna incoerente ou esmiuçada, descobre-se a trama alegórica…Outras muitas vezes triunfa a imaginação: na riqueza de elementos, em visões grandiosas – a terra que abre a boca para beber um rio (12,16) –, em traços certeiros – a fumaça do poço que escurece o sol (9,2)”.[6] Cidade, fundamentos, portas, praças, muralhas, etc. Na descrição das formas arquitetônicas da Jerusalém celeste, suas muralhas e alicerces, suas medidas e dimensões, mais do que a estrutura de uma cidade, transparece o esplendor do corpo vivo de uma esposa cósmica no auge de sua felicidade.

·         A visão: “Ora a base desse sistema sagrado de símbolos é de tipo onírico, segundo um padrão caro à literatura apocalíptica, que se exprimia através de sonhos e visões: “O Espírito tomou conta de mim… e atrás de mim ouvi uma voz forte como trombeta… e vi sete candelabros de ouro. No meio dos candelabros estava alguém: parecia um filho de Homem… Quando o vi, caí como morto a seus pés…” (Ap1,10.12.17). Através da visão, pretende-se exaltar o caráter transcendental e metarracional da revelação-apocalipse proporcionada: por isso se requer a intervenção do anjo intérprete que repetidamente aparece no livro de Daniel, escrito bíblico apocalíptico (cap. 7-12) e que também percorre os céus do Apocalipse de João”.[7]

·         Intérprete no texto: personagens celestes são, então, introduzidos para interpretar as visões, pelo menos algumas delas. Deus faz sua revelação a Jesus, que envia seu mensageiro a João para ele escrever e comunicar a mensagem às Igrejas. São elas que preservarão a mensagem, de geração em geração, para os cristãos de todos os tempos. Como guia turístico, o anjo explica, dá orientações, leva o ditoso beneficiário dessa extraordinária viagem no mundo do misterioso desígnio de Deus, passando de uma visão para outra. O problema é que, mesmo com o auxílio do anjo, a compreensão do texto para nós permanece difícil! “Apesar de tudo, a interpretação interior ao texto, se foi inteligível para muitos contemporâneos, a nós, seus sucessores, nos pode desconcertar ou parecer incompreensível”.[8]

·         Recurso ao AT: Segundo Schökel ainda que o autor não cite suas fontes, para quem está familiarizado com o pensamento, a linguagem e as imagens do AT, o Apocalipse se apresenta como um complicado e original tecido de numerosas e contínuas citações, alusões e reminiscências das Escrituras judaicas. “É uma obra inspirada amiúde em modelos alheios e profundamente original. Tudo nos soa como conhecido e nos fascina com sua novidade. Não é colcha de retalhos, não é midraxe; com materiais usados, é a criação poética de um céu novo e uma terra nova (21,1)”.

·         Cristologia: “Encontramos no início do Apocalipse (1,4-6), uma fórmula que pode ser tomada como resumo da cristologia do livro: “Graças e paz… da parte de Jesus Cristo,a testemunha fiel, o primogênito dos mortos e príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados com seu sangue, que fez de nós um reino, sacerdotes para Deus seu Pai, a ele glória…”. Em primeiro lugar temos de observar os três títulos cristológicos. Príncipe dos reis da terra relaciona-se, evidentemente, ao senhorio; primogênito dos mortos na ressurreição. É natural, pois, compreender que testemunha fiel refere-se à crucifixão, tanto que, em 2,13, o homem também chamado testemunha fiel foi igualmente condenado à morte por causa de sua fé.Testemunha de Deus no mundo: Cristo sela seu testemunho com o próprio sangue. Este sacrifício é claramente posto em paralelo com a imolação do cordeiro pascal (5,6). Garante redenção universal (5,9), perdoando os pecados (1,5; 7,14). A cruznão é, portanto, derrota, mas a atestação (testemunho), no mundo, da vitória do Deus que salva por amor. Os homens por sua vez podem ser chamados ao mesmo testemunho que consiste em proclamar, no seio do mundo hostil, o senhorio exclusivo de Deus. Este testemunho profético conduz, logicamente, ao martírio: as duas testemunhas de Ap 11 (figuras que simbolizam a vocação profética da Igreja) são condenadas à morte com seu Senhor. Mas em Ap 12,11 é solenemente afirmado que, em seu próprio martírio, as testemunhas atualizam a vitória de Cristo; Atestam receber somente de Deus sua maneira de tudo apreciar: a vida e a morte, a vitória e o fracasso não têm mais para eles o sentido enganador que o mundo lhes confere.Primogênito dentre os mortos: Cristo ressuscitou. Esteve morto mas está vivo (1,18; 2,8). O cordeiro imolado mantém-se de pé diante de Deus (5,6). Pela primeira vez a morte recuou e sua derrota é definitiva: Cristo é quem mantém as chaves da morte.Significa que dá aos seus a vida que já não pode ser reformulada pela morte natural: é vida ressuscitada que nada mais teme, nem mesmo o juízo final (suscetível de levar à segunda morte, a morte total, 2,11; 20,4.5.6).Príncipe dos reis da terra: Desde já Cristo reina. Senta-se com Deus em seu trono (3,21). Exerce poder sobre as nações (2,27-28), alcança a vitória (17,14; 19,11s). A mesma idéia devemos reencontrar no emprego da imagem do cordeiro real, vencedor e triunfante, imagem tomada da apocalíptica judaica. Esta verdade só é acessível à fé. Para o homem comum, Satanás e seus sequazes (as bestas) são os que exercem hoje o poder (13). Mas o reino de Deus e de seu Cristo é de tal modo efetivo que podemos comprová-lo e experimentá-lo desde agora: reconhecendo tão somente a Deus o direito de mandar, de julgar e de fazer viver, penetrando no mundo novo, onde o homem participa deste novo poder que em nada se assemelha à ditadura para a qual tende, tão comumente, o poder humano (1,6; 2,26; 3,21; 5,10; 2,11).Testemunhas de Deus em Cristo, vivendo sua vida, associados a seu reino, os cristãos são, no mundo, um povo de sacerdotes: atestam a presença de Deus e de Sua obra (1,6; 5,10; 20,6). Ainda assim, trata-se de uma função transitória. O plano de Deus encaminha-se para uma realização: um mundo no qual Deus e Cristo estão de tal modo presentes que já não há necessidade de templo (21,22), nem de sacerdotes. 

Síntese de alguns capítulos 

1) revelação: de Jesus Cristo. Na visão ele viu no céu Deus/Filho (testemunha fiel, príncipe da terra, Jesus Cristo, primogênito dos mortos, lavou os pecados pelo sangue (paixão e morte), realeza, sacerdote... estabilidade. Tudo isso para contrapor o Império Romano (agora chamado de Besta, Prostituta). Isso para suscitar, inspirar ESPERANÇA e FORÇA nos cristãos;

4) No céu tem um trono e nele está sentado um ancião rodeado de por 24 (12 tribos de Israel + 12 apóstolos/cristãos)...Ex 3 (Deus da história)... 4 seres vivos (cf. Ez 1)= 4 deuses/imagens que estavam na Babilônia; guardas de seus deuses - nossos padres viram aqui Marcos (Leão); Lucas (touro); João (águia) e Mateus (homem); 

5) Filho do homem: que ler/abre o Livro (Ez 2). Há 3 livros: livro da vida 3,5; 20,12 – contêm nomes dos santos; livro dos acontecimentos/procedimentos futuros (5,2); livrinho (10,8) – procedimentos curtos (Pedro e Paulo) – amargo (martírio dos cristãos passará logo). O Filho do homem tem as seguintes características do Leão Rei Davi (Mt 1; Mq 4-5; Is 11). Tudo isso para dar animo aos cristãos. Jesus é superior ao Imperador. Só Ele pode abrir o Livro; 

6,9-17) O quarto e o quinto selo falam que a natureza/fenômeno passará por uma transformação/mudança (Joel; Is 34; Os 10). Veste branca=glorificação/redenção; 

7) Cristãos massacrados/martirizados:chegarão (VV. 14-17; Dn 12,1) ao novo céu e a nova terra (Is 65; Ap 20-21; Sl 23 – Cordeiro/páscoa/libertação/êxodo). A paixão e a morte de Jesus (páscoa) é conseqüência de sua prática (Is 42,1-9); 

8-9) Destruição total: semelhantes as pragas do Êxodo – releitura do Êxodo 8-10 (pragas do Egito) – usam estas pragas contra o Império Romano e seu seguidores; os 4 anjos (v. 13s) é imaginário do tempo do Exílio (nota G da BJ) – exército babilônico e seus colaboradores; 

10) A igreja deve passar por um período de tribulação (livrinhos) – a profecia é necessária/evangelizar; 

11,1-13) pedro e paulo foram mortos possivelmente em Roma, depois de 3,5 (42 meses) houve nova criação – isso provoca alegria, coragem aos cristãos. Daqui começa a escrever os evangelhos e a literatura apocalíptica – 65-70 em Roma (4-11//Dn 7); 

11,14-19: os céus se abrem; 

12); 13); 14,1-15,4); 15,5-16,21); 17); 18,1-19,12: Estes capítulos (12,1-19,12) tem em comum: imagens, palavras chaves com citações bíblicas... sete reis (Augusto, Tibério, Calígola, Cláudio, Nero, Vaspesiano/reina, Tito/pouco/ Domiciano); 

20) dragão, morte, diabo, hades – 1000 anos – espera da chegada definitiva do Reino de Deus (Sl 90,4//1Pd //2Pd 3,8-10 e Nota B da BJ);

21) deus com eles=aliança: as coisas antigas se foram (v. 4). Os maus morrerão e os bons serão premiados – 12+12 – novo céu/terra (Israel) – 144 mil/multidão. Nova Jerusalém (cf. Is 65,17-25 – novo céu/terra) – características: Amós (paz, harmonia, reviravolta, alegria, longevidade).
 

Bibliografia consultada

1. Bíblia de Jerusalém, Apocalipse, Introdução.
2. Ravasi, G., A Boa Nova: as histórias, as idéias e os personagens do Novo Testamento, Paulinas, São Paulo, 1999.
3. Schökel L.A., Bíblia do peregrino, NT, Paulus, São Paulo, 2000, Introdução ao Apocalipse.
4. Tuñí, J.O.-Alegre, X., Escritos Joaninos e Cartas Católicas, Ed. AveMaria, São Paulo 1996.
5. VV.AA., Iniciação à Bíblia, Ed. Paulinas, São Paulo, 1980, vol.3.



[1] Trata-se de ver como estruturar a parte 4,1-22,5..
[2] VV.AA., Iniciação à Bíblia, Ed. Paulinas, S.Paulo, 1980, vol.3, pp. 196.
[3]Tuñí, J.O.-Alegre, X., Escritos Joaninos e Cartas Católicas, Ed. AveMaria, São Paulo 1996 p. 222-4.
[4]Bíblia de Jerusalém, Apocalipse, Introdução.
[5]Schökel L.A., Bíblia do peregrino, NT, Paulus, São Paulo, 2000, Introdução ao Apocalipse.
[6]Schökel L.A., op. cit.
[7]Ravasi, op. cit. p. 353.
[8]Schökel L.A., op. cit