terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Teologia do Espírito Santo


Pe. Márcio Pinheiro

As Sagradas Escrituras começam pelas origens. Destacam que tudo era desolação e nada, águas impetuosas e trevas: morte. Mas o Espírito de Deus pairou sobre as águas: a vida. Com estas imagens, os sábios de Israel querem dizer que Deus está em tudo e acima de tudo o que vive, se desenvolve e cresce sobre a terra. O seu Espírito é o penhor de que a criação nunca está privada de Deus: não está abandonada ao acaso nem – a fortiori – a espíritos maléficos. Os símbolos do Espírito São a água, o fogo, a nuvem, o sopro e o vento. Por vezes é comparado a uma pomba e é assim representado, porque se manifestou sob esta forma no Batismo de Jesus. Para os homens dos tempos bíblicos e ainda para os de hoje – a pompa é a imagem da paz e do amor que se torna visível[1].
Segundo Santo Irineu de Lyon (130-208) Deus confiou à Igreja o "Espírito, dom de Deus" (Jo 4,10) a fim de que todos os membros da Igreja possam dele participar e por ele ser vivificados. O Apóstolo Paulo, neste sentido, fala que o Espírito Santo, penhor do dom da incorruptibilidade, confirmação da nossa fé e escada para a nossa ascensão até Deus, suscitou "Na Igreja, apóstolos, profetas, doutores" e todos os outros (1 Co 12,28.11). Assim onde estiver a Igreja, está também o Espírito Santo; e onde está o Espírito de Deus, está também a Igreja e toda a graça. E o Espírito é Verdade (1 Jo 5,6)[2].
De acordo com Yves Congar o termo Ruah aparece no Antigo Testamento 378 vezes e significa, vento, sopro, sede do conhecimento, força de vida de Deus que age tanto no plano físico como no espiritual; o Espírito Santo é visto sempre na sua unidade. Mesmo no uso grego “pneuma” não sugere separação entre “alma e corpo[3]”.
            No Novo Testamento vemos a relação entre o Espírito e o evento Cristo: ele foi concebido (Lc 1.35), ungido (Lc 4,21) e age (Jo 8,28-29 na força do Espírito... Jesus promete (Jo 14-17) e concede Espírito Santo (Jo 14,13-14; 7,37-39; 19,30.34). A pregação da Igreja é obra e ação do Espírito Santo (Gl 3,2). Todos são chamados à vida no Espírito (Rm 7,6; 8) e em Cristo (1Cor 12,13; Ef 1,20-23; Cl 1,15-20). Paulo destaca que o Espírito já não é uma simples “força divina”, mas uma “pessoa divina”, enquanto que João apresenta Jesus como àquele que concede e anuncia o envio do Espírito Paráclito.
Segundo os concílios ecumênicos há três “pessoas” em Deus (em grego, hipóstasis) e uma “natureza” ou “substância” (em grego, ousía). Há três pessoas diferentes em Deus. Não há três deuses, mas três pessoas. As três pessoas são iguais. Todas são Deus e têm a natureza divina. Não há uma que seja inferior à outra quanto à sua natureza divina. Todas são igualmente divinas[4].
            O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É um mistério. Não podemos ver, reter nem mostrar. Não podemos dispor dele, porque ele é Deus e age secretamente no mundo e nos corações. Mas podemos experimentar a sua existência e a sua ação: quando um homem ou uma mulher fala de Deus de tal maneira que os outros abraçam a fé. Quando alguém sofre ou dá a sua vida pelo Evangelho. Quando alguém respira paz e alegria, quando promove a justiça ou se dedica ao serviço dos outros. Quando duas pessoas enterram a acha de guerra e se reconciliam. Quando alguém agiu mal e repara suas faltas. Quando uma pessoa, amargurada pelo ódio, começa a perdoar e amar. Quando alguém, que só pensava em si, abre os olhos para o sofrimento dos outros. Quando uma pessoa se compromete a serviço dos outros, pedindo que se respeite a flora e a fauna, a água e o ar – a vida posta em perigo pelo homem[5]...
            Diante do exposto, podemos afirmar que o Espírito Santo, mistério e presença, é a força motora de toda a ação missionária da Igreja. Ele impulsiona-nos à ação e, ao mesmo tempo, age em nós e nas pessoas, de forma a realizarmos a vontade de Deus. O Espírito Santo é a alma da Igreja, é como que o combustível que nos mantém vivos e atuantes enquanto cristãos - missionários.



[1] Eu Creio. Pequeno Catecismo Católico, 2005, p. 71-72.
[2] Cf. Texto postado.
[3] Idem. Ibidem.
[4]COMBLIN, J. Breve Curso de Teologia: Jesus Cristo e sua missão. São Paulo, Paulinas, 1983, 247-248.
[5] EU CREIO. Pequeno... 2005, p. 71.

A Arte de Comunicar


Pe. Márcio Pinheiro

O ser humano é por natureza um ser de comunicação. A comunicação estreita os laços de amizade e fraternidade entre as pessoas e instituições e, ao mesmo tempo, amplia e favorece o conhecimento, a cultura. A comunicação é essencial.
É preciso dar conta da comunicação como atividade dinâmica e um processo de contínua atualização e interação entre os agentes e instâncias envolvidas. Neste sentido, os comunicadores que opinam tem um lugar de relevância; é necessário ter consciência que não basta apenas transmitir, é preciso sair de si, ser espelho, interagir, de forma natural, distinta e clara com os interlecutores e ouvintes.
A mídia e a opinião pública se estrelaçam e se opõem reciprocamente. São forças vivas de um povo. A imagem cansa, desgasta e se esvai. A Palavra é mais contagiante. Entretanto, na era da televisão e do indivíduo há um constraste: fixa-se o olhar na câmara e se esquece da palavra, do conteúdo, da mensagem, da notícia.
Na era da comunicação precisamos compreendermos as relações institucionais entre mídia e Igreja, superando o paradigma clássico ou informacional, cujo objetivo era produzir, suscitar efeitos, imagens, representações no polo receptor,  e enveredarmos no modelo praxiológico, onde o contexto social e a cultura, os discursos, os posicionamentos e as ações práticas dos sujeitos são elementos que interagem para a compreensão da realidada subjacente.
Nesta perspectiva surge muitos outros horizontes que nos fazem refletir e, ao mesmo tempo, nos alertam para percebermos as novas e atuais "inspirações" emergentes. Isso significa que temos de atualizar nossa linguagem e discutir os assuntos polêmicos de forma aprofundada, pois o grau da discursão, do conhecimento, depende da formação das consciências das pessoas envolvidas. Desta forma, por mais que a mídia seja tendenciosa, a pessoa conseguirá, de forma crítica fazer suas ponderações e apreender as reais intenções dos meios de comunicação de forma a ampliar seus conhecimentos e elaborar sua síntese acerca dos temas abordados.
Diante desta realidade somos desafiados a apreendermos o que a bondade, a criatividade e a dinâmica do Espírito divino propõe à nossa vida. Assim, com certeza, a cultura e a vida das pessoas que nos rodeiam, sirvam de luzes e incentivo para o crescimento humano e espiritual de todos nós. Tudo isto indica que precisamos agir e atuar com mais humildade, mas também com mais ousadia, fazendo com que a mensagem do Evangelho seja apresentada, através dos meios de comunicação, de forma a atingir e expressar aquilo que ela é em si: Boa Nova. Noutras palavras, precisamos aprimorar nossa maneira de comunicar as verdades da fé, de acordo com as exigências de nosso tempo.
Neste sentido, gostaríamos de destacar a comunicação litúrgica que nos envolvem e atinge pela salvação operada por Jesus Cristo de maneira que o mistério Pascal d’Ele se atualiza e se faz presente na vida da comunidade celebrante. Na comunidade experimentamos todas as realidades da fé: o Batismo, a partilha da Palavra, a Eucaristia, a Esperança, a Unidade com Deus Uno e Trino, o amor fraterno, a missão, a sabedoria da cruz, a abertura do coração e a entrega da vida. A maneira litúrgica de se comunicar estes mistérios se dá pelo uso de palavras, gestos e sinais/símbolos explicados pela fé.
É preciso redescobrir o valor da missa e a sua simbologia; o mistério não se esconde, revela-se; manifesta-se. O símbolo explica. É preciso repensar e dar mais atenção ao uso dos símbolos/sinais na litúrgica católica, bem como formação litúrgica às comunidades de fé que celebra o Mistério Pascal de Cristo. E mais: precisamos ter consciência de que a liturgia não é uma mágica, mas uma dádiva que nos compromete e nos faz cada vez mais responsáveis pela construção de uma sociedade mais justa e fraterna à luz da Trindade Santa. Tudo isso só é possível pela iluminação da fé.
Os frutos/resultados da comunicação serão percebtíveis quando causarem impacto, provocarem mudanças croncretas e reais na vida das pessoas. a comunicação litúrgica, religiosa, deve pretender, dentre outras, segundo Padre Antonio Vieira, “não que os homens saiam contentes, mas descontentes; não que pareçam bem nossos conceitos, mas que pareçam maus os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições e, enfim, todos os seus pecados” (Sexagésima, X).
Em suma, dado que a comunicação é um dom e uma arte, temos que continuamente atualizar nossa linguagem para que sempre mais pessoas possam transmitir a Palavra de Deus, sua mensagem de amor, e o convite à conversão de maneira criativa e dinâmica.