quinta-feira, 16 de junho de 2011

A OBRA LUCANA


O estudo da obra lucana

1. OS 4 EVANGELHOS[1]

Os quatro evangelistas são: Mateus, Marcos, Lucas e João. Marcos e Lucas não fazem parte dos Doze Apóstolos. Conforme uma profecia de Ezequiel (1,4-10), os evangelistas são representados por símbolos ou figuras, da seguinte maneira:
  • Mateus é representado pela figura de um Homem, porque começou a escrever seu Evangelho dando a genealogia de Jesus.
  • Marcos é representado pela figura de um Leão, porque começou a narração de seu Evangelho no deserto, onde mora a fera.
  • Lucas é representado pelo Touro, porque começou o Evangelho falando do templo, onde eram imolados os bois.
  • João é representado pela Águia, por causa do elevado estilo de seu Evangelho, que fala da Divindade e do Mistério altíssimo do Filho de Deus.

1.1. EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO LUCAS

Lucas nasceu em Antioquia da Síria, de família pagã. Converteu-se por volta do ano 40. Estudou Medicina e estava bem colocado entre as pessoas cultas do mundo greco-romano. Pertenceu à segunda geração dos cristãos. Portanto, não foi discípulo direto de Jesus, mas de Paulo, de quem se fez grande amigo, alegrando-se e sofrendo com ele por causa do Evangelho.
Lucas escreveu o terceiro Evangelho, não como testemunha ocular, mas, conforme ele mesmo diz, escreveu "depois de ter diligentemente investigado tudo desde o princípio" (Lc 1, 3). Portanto, escreveu como historia­dor. Seu Evangelho foi redigido depois dos Evangelhos de Mateus e de Marcos. Talvez aí pelo ano 67. Lucas dirige-se especialmente aos cristãos de origem pagã, gregos e romanos. O objetivo de seu Evangelho é fortalecer os cristãos na fé.
É o evangelista que mais fala sobre o nascimento e a infância de Jesus. Certamente, entre as pessoas que consultou para escrever, está em primeiro lugar a Virgem Maria. Lucas usa uma linguagem clara e bonita, e dá um destaque especial quando fala da misericórdia de Deus, contando as parábolas da Ovelha, da Moeda e do Filho Pródigo.

1.2. Uma obra em dois volumes
            O Evangelho de Lucas é apenas a primeira parte de uma obra maior, cuja segunda parte são os Atos dos Apóstolos. É a obra lucana. A comunidade de Lucas lê a história da salvação em três etapas: tempo da promessa (AT), tempo do cumprimento (Evangelho de Lucas) e o tempo do testemunho (Atos dos Apóstolos). Na obra lucana, a Boa Notícia começa com o anúncio dos profetas de Israel (dos quais o último é João Batista), atinge sua plenitude com Jesus de Nazaré e é anunciada ao mundo todo pelo testemunho dos seguidores de Jesus. Por isso, para compreender bem o Evangelho de Lucas, é preciso entender os Atos... e vice-versa.

1.3. Quem era a comunidade de Lucas?
            A comunidade estava situada numa grande cidade da Ásia Menor, provavelmente Éfeso, onde Paulo teve muita influência (At 19). Era uma cidade portuária, donde saíam estradas para vários lugares importantes. O comércio era intenso. As diferenças sociais e econômicas eram muito grandes. Lá, Paulo encontrou uma comunidade de seguidores de João Batista (at 19,1-4). De fato, João é mais lembrado no Evangelho de Lucas do que nos outros (em Lc 1,5-80; 3,1-20; 5,33; 7,18-35 e 9,7-9). Na comunidade havia judeus e gregos, homens e mulheres, ricos e pobres. Naquela época, os preconceitos eram muito fortes. Um judeu não podia sentar na mesma mesa com um estrangeiro. Um homem e uma mulher que não fossem da mesma família não podiam conversar. Ricos se consideravam superiores aos pobres... não era fácil lidar com as lideranças.

1.4. Ricos e pobres: como formar comunidades?
            A maior dificuldade estava na convivência entre ricos e pobres. Os escravos sofriam com a miséria e as humilhações. Nas grandes cidades havia pobreza e prostituição. Uns poucos ganhavam muito dinheiro com o comércio e com o trabalho alheio. Havia a prática da usura (emprestar dinheiro a juros), na qual os pobres sempre acabavam perdendo (Lc 6,34-35; 19,22-24). O Evangelho está cheio de textos que chamam à solidariedade (Lc 3,11; 6,34-35;9,13; 10,30-37 e outros). Os Atos, por outro lado, mostram como os primeiros discípulos se esforçavam para que nada faltasse a ninguém (At 2,44-45; 11,29).

1.5. Esquema da obra de Lucas?
            Para facilitar a compreensão da obra de Lucas, apresentamos o seguinte esquema:
  • A esperança do povo e o surgimento do novo: João e Jesus (Lc 1-2);
  • O ministério de Jesus na Galiléia (Lc 3,1-9,50);
  • A viagem de Jesus para Jerusalém (Lc 9,51-19,28);
  • Jesus em Jerusalém: paixão, ressurreição e ascensão (Lc 19,29-24,52; At 1,1-11);
  • A primeira comunidade em Jerusalém (Lc 1,12-7,60);
  • O testemunho aos não-judeus (At 8-15);
  • As viagens de Paulo (At 16-20);
  • O processo contra Paulo em Jerusalém e Roma (At 21-28).
 1.6. Chaves para Lucas e Atos
  1. A salvação é para todos os povos: Diferente do que muitos discípulos de Jesus pensavam, a Boa Notícia não era direcionada apenas aos judeus (Lc 13,29; At 13,47). Todos os povos da terra são chamados por Jesus, no Espírito Santo, a participar do Reino de Deus;
  2. ... Mas o Reino é dos Pobres! Os pobres são os preferidos de Deus. A comunidade é convidada a fazer a partilha dos bens e a ensinar a sociedade toda a fazer o mesmo (Lc 14,12-14; At 4,32). Ela denuncia as estruturas que provocam a exclusão de muitos. Não engole as injustiças. Para a comunidade de Lucas, o Reino de Deus pertence aos pobres. E os ricos? Que aprendam a serem solidários, como Zaqueu, ou... (Lc 1,46-55; 6,20-26);
  3. Testemunhas da Boa Notícia: O evangelho mostra Jesus saindo da Galiléia, no interior, e indo para Jerusalém, a capital. Dali, os discípulos se espalham pelo mundo, anunciando a todos os povos a Boa Notícia. Para a comunidade de Lucas, Deus se revela na periferia! Os pequeninos da Galiléia são chamados a dar testemunho diante dos poderosos (Roma e Jerusalém). Seguir Jesus é testemunhar sua Palavra. É ser capaz de ir ao encontro de todos os povos, para que todos possam participar o Reino (Lc 12,3.8; At 1,8);
  4. A força do Espírito: O Espírito Santo está presente do começo ao fim: vem sobre Maria para fazer, dessa mulher do povo, a mãe do Salvador (Lc 1,35); enche Isabel de alegria, quando esta vê sua esperança se realizar numa criança ainda não nascida (Lc 1,41); mostra a Simeão o sentido da nova história que está surgindo nos braços de Maria (Lc 2,25-26); está por trás da ação de Jesus o tempo todo, animando-o e fortalecendo-o (Lc 3,22; 4,1.14; 10,21); envia Jesus a anunciar o Reino aos pobres (Lc 4,18); está presente em todo o processo da evangelização (At 1,8; 2; 10,44-48); impulsiona os discípulos a testemunhar a testemunha a Palavra diante de todos os povos (At 8,4; 8,29.39; 10,19; 13,2). O Espírito Santo está presente nos preparativos, na realização do trabalho de Jesus e no testemunho dos discípulos, até o fim dos tempos! Ele empurra a comunidade a assumir novos desafios e a romper com as regras que conduzem à morte;
  5. O perdão e a acolhida gratuita: A comunidade de Lucas se preocupava com a acolhida aos pecadores. O coração do Evangelho, o capítulo 15, é totalmente dedicado à atenção que se deve ter com eles.
1.7. Maria, a mãe de Jesus
            A comunidade de Lucas amava muito a mãe de Jesus. Ela é o melhor modelo para os discípulos: confiou em Deus e colaborou com ele (Lc 1,38); alegrou-se com a salvação trazida aos pobres e com a justiça do Reino de Deus (Lc 1,47.51-53); manteve firme sua esperança mesmo no abandono, na dor e na dúvida (Lc 2,7.34-35.52); em Pentecostes, estava com os discípulos e foi enviada, como eles, a testemunhar a Palavra (At 1,14). Jesus é homem e Deus. Sem a atuação do Espírito Santo e sem o “sim” de Maria, não existiria entre nós.



[1] cf. Formação Interativa com Catequistas. Ano I, nn.20-23. Remessas 5 e 6.

TIPOS DE LIDERANÇAS


             No dia a dia convivemos com muitas pessoas que trabalham de muitos jeitos. Cada pessoa assume uma postura diferente frente às demais. Dentro de qualquer grupo social, o coordenador é uma das peças principais, pois é catalisador de energias individuais. Neste sentido, deve-se tomar cuidado não somente com sua escolha, mas também em sua formação e aperfeiçoamento. Entre as características pessoais do coordenador convém lembrar que ele deve ter qualidades superiores à média de seu grupo, a fim de ser um exemplo e transmitir novos conhecimentos aos outros. Vejamos, a seguir, algumas posturas de coordenadores de grupos:

1)      Autoritária e dominadora: Quando o poder é exercido de forma autoritária, tornando as pessoas objeto de sua vontade e decisão. Dificilmente acontece a participação livre onde é exercida uma metodologia assim. Todos os elementos do grupo dependem exclusivamente do “ditador”, que possui autoridade máxima. Os membros são meros “executores” das ordens da autoridade. Neste tipo de grupos os membros são apáticos e perdem todo espírito de iniciativa e responsabilidade: estão submetidos a fortes pressões afetivas e a guerrilhas entre si. O planejamento é imposto de cima para baixo, não há diálogo e toda tentativa de participação é reprimida, abafada. As conseqüências para os grupos são as seguintes: cansaço, revolta, frustração, individualismo, competição, medo, não surgimento de novos líderes, dependência, desinteresse, divisão, evasão das reuniões e encontros.

2)      Paternalista: O líder pensa, determina e faz tudo pelo grupo como um pai em relação à criança. Ele é quem resolve todas as questões e providencia tudo o que é necessário para o grupo. Todos dependem de seus “conselhos”, pelo menos aparentemente, faz tudo pelo bem do grupo. Estas atitudes apesar de permitir pequenas brechas pra transformação, mantém a situação como está. São características desse jeito de fazer pastoral: manipulação nas decisões, imposição disfarçada, centralização do poder e das funções, com participação aparente apenas nas questões de menor importância. As conseqüências dessa postura: satisfação aparente, passividade, comodismo, egoísmo, resignação e participação não questionadora.

3)      Liberal ou “laissez-faire”: Laissez-faire, em francês, quer dizer “deixar fazer”. O lema deste grupo de coordenadores é: “deixar como está para ver como é que fica”. Em geral, este tipo de coordenador é uma pessoa muito insegura, que tem receio de assumir responsabilidades. É uma atitude oposta às duas anteriores. É aquela que permite tudo. Não há questionamentos, reflexão e nem critérios para a tomada de decisões. Na divisão dos trabalhos, na repartição das responsabilidades, a confusão é completa. Na caminhada são poucos os avanços e se nota uma grande superficialidade dos participantes. A sua direção gera atritos e desorganização entre os membros. Facilmente se desvia o caminho do objetivo inicialmente proposto. Procura-se caminhar onde é mais fácil. Estes grupos tendem a dissolver-se ou a cair no grupo ditatorial para poder sobreviver.

4)      Participativa libertadora: É aquela que envolve a todos, forma novos líderes e faz uma ação libertadora. Todos participam das atividades comuns e têm idéia clara dos objetivos, metas e meios para consegui-los. Há livre intercâmbio de idéias e discussão clara dos meios necessários para atuar. Respeita os participantes e crer neles. Consegue a cooperação do grupo pela sua competência, paciência, tolerância e honestidade de propósitos. Não dá ordens: dá exemplo, estimulando em vez de raiar. Sabe obter o máximo de produtividade por meio do máximo de boa vontade. Neste jeito de se caminhar destaca-se o diálogo e a busca comum da verdade que surge como fruto da participação. São ainda características desta postura a partilha, o poder assumido em conjunto, o respeito, a sinceridade na avaliação, a confiança mútua, a união em torno de objetivos comuns, a superação da competição e individualismo. Tudo isso numa constante busca da fraternidade. O grupo democrático permite uma autocrítica comum de todos os membros e aprofunda a consciência da responsabilidade de todos e de cada um dos objetivos comuns. Progressivamente vão aparecendo os líderes naturais. O coordenador deve atraí-los e formá-los para a liderança. É um dos momentos mais delicados. Muitos coordenadores de grupos não sabem adotar a atitude de João Batista: a de desaparecer para que os outros cresçam.


REFERÊNCIA
BORAN, Pe. Jorge. Curso de dinâmica para lideranças cristã.  São Paulo: Paulinas, 1989. pp. 76-80.